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Conversa com a autora Júlia Barandier, autora de Bakken

No romance, Antonio, um homem de meia idade divorciado, se muda para Copenhagen e começa a descobrir o ofício da arte. Depois de conhecer Hans, um pintor dinamarquês, o protagonista passa a vivenciar novos lugares e relações. Ele não deixa, no entanto, de se corresponder com sua ex-mulher Marta, que só aparece pela voz do autor das cartas. 


Como foi para você criar ao longo da narrativa uma amizade entre amigos tão delicada e permeada de diferenças culturais entre um brasileiro e um dinamarquês?

A amizade entre Antônio e Hans é o que carrega o romance e o que, para mim, tem de mais divertido na história. Para construir a dinâmica deles de forma em que as diferenças ficassem evidentes, mas principalmente o afeto que um sente pelo outro mesmo assim, brinquei bastante com a troca de pontos de vista. Temos a narração do Antônio, que dá conta até dos detalhes mais mínimos no comportamento do Hans e principalmente da sua capacidade de se doar para os outros, o que salva Antônio. Temos uma narrativa em terceira pessoa, que mostra Antônio e Hans de fora, em seus passeios, em diálogo. E o ponto de vista de Hans, que também mostra pequenos detalhes do Antônio mas mostra, principalmente, uma história que Antônio não vê: a tristeza e solidão vivida por Hans no dia a dia. As cenas em terceira pessoa com certeza foram as mais divertidas de escrever. Mas o mote do livro foi a amizade entre completos estranhos que dividem uma solidão imensa e decidem se apoiar. Esse tipo de amor me interessa, na escrita, muito mais do que o romântico.


A curiosidade sobre o processo criativo das escritoras é tema recorrente, pode nos contar brevemente a história por trás do livro? Da ideia à finalização, como foi seu processo criativo?

A história começou na oficina de escrita da professora Claudia Chigres, na PUC-Rio. Eu estava no início da graduação, ainda não planejava escrever um romance, e fui desenvolvendo esses personagens nos exercícios em sala. Com o tempo percebi que não queria parar de escrever sobre eles, que eles eram uma história muito maior do que pequenos fragmentos de estudo. Planejei o romance e passei a pandemia toda trabalhando nele. Depois da leitura de alguns professores e colegas ganhei coragem para tentar publicar.


Das leituras que nos têm chegado, a percepção de uma narrativa madura, com personagens complexas e história instigante têm sido comuns. Como você recebe essa percepção das leitoras e leitores? Tem trocado ideia com quem tem lido sua obra?

Não tem nada melhor para mim do que escutar a opinião dos leitores. Fico muito feliz que comentários assim tenham chegado para vocês. Hoje em dia gosto mais do livro do que gostava quando ele saiu. São os outros que fazem essa magia, devolvem o livro. Tenho tido o prazer, sim, de conversar com alguns leitores e adoro quando dividem impressões diferentes das minhas originais. Um ponto de discussão recorrente tem sido a sexualidade do Antônio. Uma livraria divulgou Bakken como um livro lgbt, alguns leitores têm certeza de que Antônio é apaixonado apenas pela Marta, e outros ainda argumentam que Antônio é assexual. Deixar em aberto, ou, deixar para o leitor o máximo possível, era o que eu queria com essa história.



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